a dimensão do papel do enfermeiro-líder como elemento essencial de comunicação nos sistemas de organização da assistência de enfermagem.
UNITERMOS: liderança, comunicação, enfermagem, enfermeiro
A perspectiva social de gerenciar, proveniente da Teoria das Relações Humanas e da Teoria Comportamental, concebeu novas dimensões e novos valores para a gerência e para a organização. Com a intenção de democratizar e humanizar as organizações, concentrou-se na rede informal, na participação, na motivação e necessidades humanas, na comunicação, na liderança, nos grupos sociais e, sobretudo, preocupou-se com a satisfação no trabalho, pois entendia que o nível de produção estava a depender desses fatores. Um dos principais objetivos do movimento humanista e social foi quebrar o excessivo controle hierárquico e encorajar a espontaneidade dos trabalhadores (TREVIZAN & MENDES, 1993).
Estudos contemporâneos sobre o processo e a dinâmica organizacionais, especificamente sobre comportamento humano e liderança visualizam-na como um processo coletivo compartilhado entre os membros de um grupo. A visão de legitimidade da liderança, fundamentada na aceitação do líder pelo grupo, significa que grande parte do poder do líder situa-se no próprio grupo. O líder então é a pessoa capaz de canalizar a atenção dos envolvidos e dirigi-la para ideais comuns. Para isso ele se empenha no sentido de aproximar e ajustar interesses grupais e individuais em consonância com os objetivos da organização. Ao investir no poder existente nos liderados, o líder rearticula esse poder em sintonia com o seu próprio para conseguir uma aliança grupal em relação a objetivos comuns, mantendo sua influência através do reforço do comprometimento com ideais comuns. Assim, a liderança é a expressão de apoio e confiança; é o desenvolvimento de um real sentido de interdependência entre os integrantes, com respeito às individualidades (MOTTA, 1991).
Nesse contexto "o diálogo constitui-se num procedimento incitante e educativo no sentido de investigar e explorar os valores com os liderados; diálogo ou conversas também possibilitam ao líder esclarecer os seus próprios valores, bem como os dos liderados" (TREVIZAN et al., 1996).
Já é lugar-comum dizer-se que no âmago da liderança está a capacidade de comunicar. Assim, a comunicação é fundamental para o exercício da influência, para a coordenação das atividades grupais e, portanto, para a efetivação do processo de liderança. O êxito do líder está relacionado com a sua habilidade de comunicar-se com outros; esse processo engloba a utilização sistemática de símbolos para transmitir informação e alcançar entendimento sobre uma situação. O objetivo do comunicador é transmitir uma mensagem para alguma outra pessoa, de modo tal que essa mensagem seja recebida da forma pretendida, sem distorções.
De acordo com TREWATHA & NEWPORT (1979), "a comunicação é um meio de obter a ação dos outros e é definida como o processo de transmitir e entender informação. É um modo de desenvolver entendimento entre pessoas através de um intercâmbio de fatos, opiniões, idéias, atitudes e emoções".
HEIL et al. (1995) insistem quanto a necessidade de se "pensar na comunicação como um processo de duas mãos". GOLDSMITH (1996) acrescenta que "o líder do futuro perguntará, aprenderá, acompanhará e crescerá de forma consistente e efetiva... Este líder solicitará a diversos grupos de interesse idéias, opiniões e feedback. Entre as fontes vitais de informação estarão clientes potenciais e atuais, fornecedores, membros de equipe, subordinados diretos, gerentes, outros membros da organização, pesquisadores... Duas chaves para o aprendizado são (1) ouvir atentamente e (2) refletir após indagar e receber informações ... Os líderes precisarão reconhecer e apoiar aqueles que têm coragem de dizer duras verdades antes que os problemas se transformem em desastres". Ainda GOLDSMITH (1996) relata sobre recente pesquisa indicando que os líderes que solicitam idéias dos principais grupos de interesse aprendem através de uma atitude positiva e não defensiva, são capazes de acompanhar de maneira direcionada e eficiente e, com isso, certamente, crescerão e se desenvolverão em termos de eficácia.
A comunicação visa, pois, provocar mudanças esperadas no comportamento dos indivíduos, através do desenvolvimento de atitudes positivas em relação ao próprio desempenho, que culmina com a satisfação profissional. Sob esse aspecto, a comunicação está no núcleo da liderança, uma vez que a liderança é um relacionamento interpessoal no qual os líderes influenciam pessoas para mudança via processo comunicativo.
LÍDER: FOCO DE RECEPÇÃO E TRANSMISSÃO DE INFORMAÇÕES
MINTZBERG (1973) categorizou os papéis administrativos em três grupos: interpessoais, informativos e decisionais.
O líder é o centro do fluxo de informação não rotineira em sua organização; as fontes que ele utiliza asseguram-lhe a condição de melhor informado sobre ocorrências e eventos de seu ambiente organizacional.
Por sua vez, os papéis informativos englobam atividades vinculadas fundamentalmente à obtenção e disseminação de informações e os papéis decisionais estão centrados na tomada de decisão.
Nessa análise, denominamos líder aquela pessoa envolvida com papéis administrativos. Assim, utilizando a classificação de MINTZBERG (1973), no desempenho de seus papéis informativos o líder atua como monitor, como disseminador e como porta-voz.
Atuando como monitor, o líder busca e recebe continuamente informações que subsidiam a compreensão do que ocorre na sua organização. Com base nas informações recebidas, de sua organização e de seu ambiente externo, ele identificará problemas, detectará mudanças que possam estar acontecendo - ou a necessidade de mudanças a serem implementadas - e tomará decisões.
Enquanto disseminador ele transfere informação proveniente do ambiente externo para dentro de sua organização e transmite informação interna de um subordinado para outro.
Como porta-voz, o líder transfere informação de sua organização para o ambiente externo. Investido de autoridade formal ele é chamado a representar sua organização e, para tanto, ele é possuidor das informações necessárias para um desempenho efetivo deste papel. Ele tem os meios para influenciar outros representantes com vistas à obtenção de medidas favoráveis a sua organização, além de operar como relações públicas.
Para atuar como porta-voz, o líder deve garantir informação para dois grupos:
a) os influenciadores importantes de sua organização - o diretor do hospital, em se tratando da diretora do serviço de enfermagem como líder, e o corpo de diretores de enfermagem, no caso da enfermeira-chefe;
b) o público que utiliza a organização - o diretor do hospital presta informações a fornecedores, imprensa, agências governamentais, clientes; a enfermeira-chefe informa clientes, pares, profissionais de outros departamentos que prestam serviços em sua unidade de trabalho.
b) o público que utiliza a organização - o diretor do hospital presta informações a fornecedores, imprensa, agências governamentais, clientes; a enfermeira-chefe informa clientes, pares, profissionais de outros departamentos que prestam serviços em sua unidade de trabalho.
Tanto os influenciadores quanto o público que utiliza a organização são informados sobre planos, regras, movimentos, condutas e resultados obtidos no âmbito da organização do líder.
O ENFERMEIRO-LÍDER COMO FONTE CENTRAL DE COMUNICAÇÃO
Pelo exposto, a comunicação foi examinada no contexto da liderança.
Passaremos agora a esboçar a dimensão do papel do enfermeiro-líder como fonte central de comunicação, ou seja, o propósito aqui é abordar o processo comunicativo como um instrumento essencial para o exercício da liderança nos sistemas de organização da assistência de enfermagem.
Liderança em enfermagem é um processo por meio do qual uma pessoa, que é o enfermeiro, influencia as ações de outros para o estabelecimento e para o alcance de objetivos. Isto implica definir e planejar a assistência de enfermagem num cenário interativo (YURA et al., 1981).
Entretanto, a liderança exercida pelo enfermeiro está vinculada ao modo pelo qual a prestação da assistência de enfermagem está estruturada e, em decorrência, os papéis de monitor, disseminador e porta-voz serão processados pelo enfermeiro em função da modalidade de assistência empregada e do estilo de liderança adotado.
No Método de Caso, o enfermeiro trabalha apenas com um paciente e procura alcançar todas as suas necessidades. Este método, ou modificações dele, é usado ainda hoje em situações emergenciais e é aplicado por estudantes de enfermagem e enfermeiros envolvidos na prestação de assistência privativa. A organização desta assistência é muito simples, uma vez que a relação é de um para um, e isto propicia ao enfermeiro o exercício de uma liderança estritamente voltada para a assistência direta ao paciente e para a coordenação dos seus cuidados envolvendo sua família. Uma grande vantagem da utilização deste método é o atendimento imediato das necessidades, decorrente de um processo comunicativo aberto e do relacionamento mais estreito entre o enfermeiro e o paciente (TREVIZAN, 1993).
No Método Funcional, segundo TREVIZAN (1993), a assistência de enfermagem é dividida em tarefas desenvolvidas pelos elementos do grupo, de modo que cada um é responsável por determinadas tarefas a serem executadas para um grande número de pacientes. Assim, por exemplo, compete ao atendente arrumar todas as camas, ao auxiliar ministrar todas as medicações, e ao enfermeiro prestar os cuidados de maior complexidade, bem como planejar a assistência a todos os pacientes. Ao enfermeiro-chefe cabe supervisionar a todos, e deles receber os informes relacionados ao serviço.
Este método visa à eficiência de cada trabalhador e é fundamentado na organização clássica de divisão do trabalho, que preconiza a delegação de autoridade e responsabilidade proveniente do topo. Deste modo, a liderança aqui empregada é diretiva ou autocrática; em consequência, a comunicação também será diretiva - uma comunicação que visa ao cumprimento de ordens e tarefas. Em suma, as responsabilidades são atribuídas de acordo com o processo funcional e, por conseguinte, as comunicações são efetivadas através deste processo, ou seja, são orientadas segundo a estrutura organizacional. Sob a influência deste sistema de prestação de assistência, o profissional de enfermagem procura saber do paciente aquilo que ele quer ouvir para o cumprimento de suas tarefas conforme demonstrado no estudo de MENDES (1994).
Com a introdução do Método de Equipe de Enfermagem, a liderança exercida pelo enfermeiro passa a ser democrática ou criativa, já que a idéia que subjaz a esta organização de assistência é o trabalho conjunto de uma equipe que atua como um grupo de democrático. Ao enfermeiro-líder compete assumir o cuidado de um grupo de pacientes, bem como responsabilizar-se pelo trabalho de seus colaboradores: enfermeiro, auxiliar e atendente de enfermagem.
A liderança desse profissional é fundamentada no conhecimento das necessidades dos pacientes; no conhecimento das habilidades, características individuais e necessidades dos membros da equipe; e nos objetivos traçados pelo grupo. Uma característica importante deste método é o estimulo para que cada membro desenvolva o seu potencial, uma vez que, ao ser designado para cuidar de determinado paciente, o funcionário sabe que foi considerado o melhor qualificado para proporcionar-lhe uma assistência que atenda as suas necessidades.
Ao contrário do Método Funcional que leva o funcionário à frustração, o Método de Equipe propicia a satisfação no trabalho porque cada membro utiliza suas capacidades ao máximo; desta forma, os pacientes são melhor atendidos. A comunicação, por conseguinte, é orientada pelo objetivo da equipe: assistência personalizada.
Apesar da organização deste método ser centralizada, com controle e supervisão assegurados, a dinâmica do grupo permite e favorece uma comunicação mais participativa entre seus membros, em decorrência da liderança adotada (TREVIZAN, 1993). As reuniões da equipe representam um meio importante de comunicação, onde o input de cada membro contribui para a atuação do enfermeiro-líder como monitor; ao mesmo tempo, estas reuniões se constituem no momento ideal para que ele exerça o papel de disseminador. Considerando que neste método o líder da equipe é o único membro que, teoricamente, leva informações ao enfermeiro-chefe, nestas oportunidades, dentre outras, ele age como porta-voz de sua equipe.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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02. CRAWFORD, R. Na era do capital humano. Trad. Luciana Bontempi Gouveia. São Paulo: Atlas, 1994. [ Links ]
03. GOLDSMITH, M. Indagar, aprender, acompanhar e crescer. In: HESSELBEIN, F.; GOLDSMITH, M.; BECKHARD, R. O líder do futuro. Trad. Cynthia Azevedo. 2. ed. São Paulo: Futura, 1996. [ Links ]
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13.TREWATHA, R.L.; NEWPORT, M.G. Administração: funções e comportamento. Trad. Auriphebo B. Simões. São Paulo: Saraiva, 1979. [ Links ]
14. YURA, H.; OZEIMEK, D.; WALSH, M.B. Nursing leadership: theory & process. 2. ed. New York: Appleton-Century-Crofts, 1981. [ Links ]
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